7 de setembro de 2019

Original Vs. Fake - Um guia prático para leigos


Aviso: Nenhum cartucho ou PCB foi ferido na produção deste artigo. Bom, dois deles ficaram sem o dito autocolante mas enfim, vão ser utilizados noutro projecto. E peço desde já as mais sinceras desculpas pela qualidade amadora das fotografias mas é o que se consegue para tentar explicar tudo isto. E agora, on with the show!

Os anos 90 foram sem dúvida o meu período favorito na história dos videojogos, de onde surgiram eternos clássicos um pouco por todas as plataformas mais famosas da época. Com o sucesso de algumas consolas, era natural que surgissem bootlegs/repros/fakes (chamem-lhes o que bem quiserem) para alguém tirar partido disto. Alguns dos mais famosos são os cartuchos usados nas conhecidas Family Game, clones da Famicom, que se vendiam por preços bem abaixo dos jogos originais de NES e um pouco por todo o lado, como em feiras, centros comerciais e até locais onde não era normal venderem-se artigos destes. Mas os que nos interessam são os de Game Boy, essa consola que tão bons momentos nos proporcionou e que ainda hoje continua a ser uma das minhas favoritas.

Era comum encontrar-se com frequência bootlegs de Game Boy, alguns mais elaborados do que outros onde até a caixa e manual de instruções eram reproduzidos. Contudo, a qualidade de impressão era algo que denunciava à priori a origem destes jogos. Mesmo em miúdo, rapidamente tive esta percepção e sabia distinguir bem um original de um fake, ainda que tenha alguns na minha colecção por serem os títulos que são. Hoje em dia, ainda se vêem com alguma frequência cartuchos fake desta época bem como outros mais recentes e menos empenhados em passar por originais. E como é que se distinguem uns de outros? É o que vamos ver ao longo deste pequeno guia.

Como referi acima, o packaging era uma cópia fiel do original ainda que a impressão dos materiais nem sempre era a melhor e isso era o primeiro sinal de alerta. A caixa era a primeira coisa  ter em conta e logo por aqui se conseguia ver se era original ou não pois as imperfeições eram notórias, não só na impressão mas pequenos pormenores como as medidas não estarem alinhadas ou ter cortes fora do sítio. O cartão usado também era por vezes de cor diferente do original que por norma (99% das vezes) era cinzento. Outro sinal de alerta era o facto da grande maioria dos jogos contrafeitos serem as versões americanas, algo que se via pelo selo de qualidade da Nintendo ser o Official e não o Original. Aqui também surgem os primeiros enganos por parte de muitas pessoas que assumem que o selo Official, que é oval, é falso e portanto todos os jogos com este selo são falsos. Um erro comum e típico de quem é leigo nisto. O selo Official de forma oval sempre foi usado nos jogos americanos enquanto o selo Original, redondo no seu formato é usado em jogos de regiões PAL (Europa e Austrália). No Japão não se usa selo nenhum para representar isto. Contudo, e para meu espanto, há pouco tempo encontrei dois cartuchos fake com o selo Original, algo que pensei nunca ter sido feito e que até se provou interessante do ponto de vista técnico como mostrarei à frente.


Como actualmente é mais comum achar apenas os cartuchos, há que os analisar por partes. O exterior está repleto de sinais que ajudam a distinguir um original de um fake de forma muito fácil.

COR E TAMANHO

A cor de um cartucho original é cinzenta, numa tonalidade idêntica a todos os cartuchos sem que nunca tenha dado conta de variações nisto em todos os que me passaram pelas mãos. Obviamente existem excepções como é o caso de jogos como os Pokémon que têm outras cores entre outros. Mas à primeira vista, qualquer cartucho fake apresenta outra tonalidade de cinzento, alguns muitíssimo parecidos mas outros que oscilam mais para o lilás. Numa comparação lado a lado dá para ver bem a diferença notória entre ambos. Relativamente ao tamanho, grande parte dos cartuchos fake tem as mesmas dimensões de um original mas certos casos podem aparentar isto mas serem de facto ligeiramente diferentes por uma questão de milímetros, o que por si só se nota ao introduzir num Game Boy oferecendo uma certa resistência em vez de deslizar naturalmente. Isto nota-se em qualquer modelo de Game Boy, desde o original ao Game Boy Advance SP.





LETTERING E CONCAVIDADE

O lettering usado no topo do cartucho onde se lê "Nintendo GAME BOY ™" é muito característico e e também um dos pontos que permite fazer a distinção. Num cartucho fake, por norma o "O" em "Nintendo" parece não estar alinhado com o resto das letras. Porém, alguns não apresentam diferença nesta parte mas logo ao lado em "GAME BOY", surgem as diferenças que por muito pequenas que sejam são notórias ao olho treinado pois o espaçamento entre letras pode ser diferente e mesmo algumas das letras têm uma forma diferente, nomeadamente o "G" em "GAME" e o "O" em "BOY". O símbolo "" também pode apresentar tamanhos diferentes do usado nos cartuchos originais. E muitos dos cartuchos fake apresentam uma concavidade menos profunda onde estão gravadas estas palavras, sendo que outros não apresentam diferença neste campo face aos originais.


STICKER

Este é provavelmente o método mais fácil para discernir se um cartucho é original ou fake devido logo à partida à qualidade do autocolante. Se a imagem apresentar cortes imperfeitos, cores esbatidas ou com ghosting, falta de brilho no selo de qualidade e no selo "Game Pak", que por norma têm um brilho dourado e prateado, estão perante um fake. Por vezes, até um original pode apresentar alguns defeitos destes que enuncio, por motivos de fabrico incorrecto. Outro pormenor que todos descuram, ou nem sequer sabem da sua existência, é um pequeno número cravado no autocolante na parte inferior direita, presente nos jogos originais. Num cartucho fake, a maior parte nem sequer tem isto mas alguns que replicam as versões americanas têm embora quase imperceptível. Curiosamente, os dois que vi a replicar versões europeias, um deles tem e bem visível.



PEQUENOS DETALHES NO CARTUCHO

Para além do lettering e concavidade, existem outros tantos pequenos detalhes no geral que permitem distinguir um original de um fake. De lado, os cartuchos apresentam umas linhas que vêm da parte de cima. Nos originais, existe um pequeno espaço que divide estas linhas. Alguns cartuchos fake têm estas linhas quase que ligadas, outros têm o mesmo espaço e outros ainda, o espaço é ainda maior. Existem ainda uns cujas linhas são mais pequenas em termos de dimensão, aproximadamente 1 milímetro, coisa que só se nota com uma inspecção lado a lado com um original. Na parte traseira, o lettering usado nos palavras "MADE IN JAPAN" e "PAT. PEND." pode ser diferente dos originais ainda que alguns fake usem lettering praticamente idêntico. Um pormenor que ninguém praticamente sabe é que os originais têm um número gravado na parte interior, aliás em ambas, frente e traseira. O da parte da frente dá para ver se virarmos o cartucho para cima de forma a ver os contactos e assim, no canto superior esquerdo (visto desta perspectiva), está o número gravado no plástico. Nos fake, por norma não tem número nenhum gravado mas em raras excepções, pode ter.




PESO

Um cartucho normal, mesmo que use pilha para gravar na SRAM, não pesa muito mais do que um cartucho sem pilha. A meu ver existe uma linha muito ténue relativamente ao peso dos cartuchos originais. Um cartucho fake tanto pode pesar o mesmo que um original comum, pesar menos ainda devido a usar uma PCB mais pequena e sem tantos chips (por norma costuma ter dois) ou pesar muito mais do que o normal por usar chips de dimensões muito grandes para um cartucho de Game Boy, o que por vezes provoca o chamado "inchaço" onde se pode ver que o cartucho não tem uma forma normal e parece que tem algo grande lá dentro. E de facto tem.

PCB (Printed Circuit Board)

Ao abrir o cartucho temos o tira teimas final. Antes de investigar a PCB podemos ver que o plástico traseiro também tem um número gravado no canto superior esquerdo nos cartuchos originais. É possível que nem todos tenham mas da minha experiência até agora não apanhei nenhum assim.  O sítio onde a PCB assenta tem dois pormenores que permitem que a mesma não sai do sítio. Um deles é o buraco do parafuso e o outro é um pequeno ponto de plástico acima, que se se pode partir com facilidade com o uso ou queda do cartucho. Nos cartuchos fake, este pequeno ponto de plástico pode ser mais grosso e assim não permitir o uso de uma PCB original. Os encaixes de ambas as partes frente e traseira podem também ser diferentes dos originais, não sendo de todo intercambiáveis.




 Quanto à PCB em si, a de um jogo original tem várias referências, desde numéricas a palavras como "DMG", sigla comum para denominar tudo quanto é de Game Boy, bem como os copyrights e a palavra "Nintendo" gravadas algures, juntamente com o ano de produção. Os chips da EPROM, SRAM e afins estão devidamente identificados, podendo em grande parte dos casos achar-se informação online sobre os mesmos. O material usado é de excelente qualidade, sobretudo os contactos, que mesmo ao final de 20 e tal anos, retêm o brilho mesmo com o uso, considerando que têm sido estimados e limpos ao longo do tempo.




Numa PCB fake temos várias coisas a explorar e que são cómicas por vezes. Antigamente eram usados diferentes chips para as EPROM consoante os jogos e sua dimensão (512KB, 1MBit). Alguns usam chips baratos e cuja informação é  de fácil acesso estando identificados devidamente (Macronix, Texas Instruments, etc). Outros usam, imagine-se, chips reprogramáveis (de marcas como Hitachi e Fujitsu, que encontrei em dois cartuchos) que são demasiado grandes para um cartucho de Game Boy. Mas estes até podem ser úteis futuramente para repros pois são ambos de 1Mbit. Mas o mais comum hoje em dia é vermos o chamado "blob", que não é nada mais nada menos que uma espécie de epoxy na PCB onde está a rom do jogo. Curiosamente existem cartuchos originais com a dita "blob", nomeadamente algumas versões do Tetris. A minha que é a versão espanhola é exactamente assim e fiquei surpreso quando abri o cartucho e me deparei com aquilo (ver primeira foto acima).


Outra grande questão é o caso dos cartuchos com pilha mas sinceramente de Game Boy ainda não apanhei nenhum que faça uso disso para poder comparar com um original mas tanto quanto sei existem alguns mais antigos como por exemplo o Super Mario Land 2. Actualmente, se apanharem alguma repro, é possível que possa ou não ter pilha para gravar mas se for daquelas do Aliexpress, o melhor é lerem comentários dos consumidores na página do vendedor pois alguns têm pilha, outros não.

Existem ainda alguns casos curiosos associados a tudo isto onde se incluem PCBs cujos chips não se conseguem identificar, muito provavelmente oriundos de Hong Kong dado a referência inscrita nos mesmos. Neste caso concreto, detectei um num multicart que tenho (com uma selecção decente de jogos) e ao qual fiz um pequeno refurbish há uns tempos. Outro caso curioso é o facto de alguns jogos poderem nem sequer ser as versões que supostamente dizem ser no autocolante. Por exemplo, no caso de Teenage Mutant Ninja Turtles: Back from the sewers, o cartucho fake é a versão americana mas a rom do jogo é a versão japonesa do mesmo que se chama Teenage Mutant Ninja Turtles 2, sendo a única diferença no jogo pois o resto é tudo igual, incluindo estar todo em inglês. Nas repros mais actuais, tudo salta logo à vista a começar pelo autocolante e claro não descurando o cartucho em si cuja qualidade de construção é de longe pior que todos os anteriores.



Bom, com este pequeno guia creio que já têm a informação necessária para saberem disntinguir um cartucho original de um fake. Não é nada do outro mundo mas pequenas e interessantes nuances são sempre algo a considerar visto poderem facilmente ser esquecidas. Pessoalmente não me importo de ter um ou outro jogo que não seja de todo original devido por um lado os preços dos originais hoje em dia serem absurdos e por outro, quando se tratam de repros actuais, podermos ter acesso a romhacks, como é o caso de Gargoyle's Quest II cuja versão de Game Boy saiu apenas no Japão. Esta romhack está completamente em inglês e é perfeitamente jogável em hardware original. Nesta perspectiva não me importo nada de ter repros, até porque sempre podemos depois personalizar o cartucho tal como fiz (ver análise ao jogo).

E é isto por agora!

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